19 de mai de 2011

Documentário: O carro adiante dos bois

A história de Amélio Amorim e seu Carro de Boi

Por Carolina Cerqueira Lôbo


O Complexo Carro de Boi foi um empreendimento arquitetônico e empresarial de autoria do arquiteto e empresário Amélio Amorim. 


Foto: Gal Fernandes
Complexo Carro de Boi - Boate Jerimum (ou, o que sobrou dela)


O espaço se destaca na paisagem urbana de Feira de Santana por suas referências históricas e culturais sobre a cidade e região. Originalmente, foi concebido para ser um hotel: Complexo Turístico Carro de Boi. Porém, apenas a primeira etapa chegou a ser construída – o restaurante homônimo e uma boate em formato de abóbora.

Aquele espaço, em muitos aspectos, foi marcado por uma história que mescla irreverência, sonho, esforço, criação, apogeu, declínio, incêndio e o atual estado de descaracterização e destruição. Tendo em vista contemplar variados aspectos desse empreendimento, o audiovisual nos parecia a forma mais adequada de narrar essa história. Como explica Jean Bordanave, “o cinema, graças a sua possibilidade de percepção múltipla, aumenta a vivacidade e naturalidade das mensagens” (Bordenave, 1983, p. 62).
 

Foto: Carolina Lôbo
O abandono do Complexo Carro de Boi

O documentário, além de chamar a atenção para o abandono do Carro de Boi, destacaria a figura do arquiteto idealista Amélio Amorim, personagem conhecida por poucas pessoas, embora hoje nomeie um dos mais importantes centros de cultura da cidade. 

Nosso propósito era transformar o documentário num “instrumento de promoção da cidadania” (Da-Rin, 1995, p. 37), ao resgatar um importante momento da história feirense. Tal propósito seria facilitado pela alta capacidade de reprodutibilidade do documentário, pois “o olho apreende mais rápido do que a mão que desenha.” (Bejamin, 2000, p. 223), fazendo da forma cinematográfica uma “linguagem universalmente compreendida [...], possuindo uma considerável força de expressão” (Kaufman apud Da-Rin, 1995, p. 93).


Foto: Arquivo - Débora Amorim
Arquiteto Amélio Amorim

Essa preocupação por uma linguagem universalmente compreensível visava criar um elo entre academia e sociedade. Visualizávamos um trabalho que pudesse conscientizar e informar. Para além da informação facilmente descartável, buscávamos uma reflexão sobre o homem Amélio Amorim e sua obra significativamente intitulada Carro de Boi.


Foto: Carolina Lôbo
Detalhe do Jerimum

Para esse propósito, foi muito importante a dupla vinculação do projeto: além de ser trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, da Unidade de Ensino Superior de Feira de Santana (UNEF), o documentário fez parte da nossa atividade como monitora do Núcleo de Estudos do Sertão (NES), órgão lotado no Departamento de Letras e Artes da Universidade Estadual de Feira de Santana (DLET/UEFS), enquanto aluna de Letras Vernáculas. Através do NES, buscávamos no projeto de Amélio Amorim o complexo diálogo com signos representativos da identidade sociocultural de Feira de Santana e do sertão nordestino. Essa dupla vinculação do documentário sobre o Complexo Carro de Boi foi viabilizado, no seu aspecto institucional, através de um Termo de Cooperação firmado entre a UEFS e a UNEF, funcionando ao mesmo tempo como parte integrante de créditos acadêmicos nas duas Instituições.


Foto: Arquivo - Arlindo da Silva Pitombo
Antiga Feira Livre no centro da cidade

O objetivo inicial era contar a história do Carro de Boi, e entender porque aquele espaço foi desativado. Responder o que foi e o que pretendia ser o Complexo; quem foi o arquiteto Amélio Amorim e qual a sua importância para Feira de Santana. Discutir como e porque o investimento em elementos regionais de forte apelo tradicional, como o carro de boi e o jerimum, no contexto de uma cidade que buscava, sobretudo, evidenciar sua marca cosmopolita.

Michel Maffesoli (1998) trabalha com a idéia de que na pós-modernidade nós temos não uma multiplicidade de identidades, mas de identificações. Considerando tal princípio, poderíamos questionar: que identificações eram essas que motivou Amélio Amorim a construir um espaço turístico-cultural onde estavam presentes valores arquitetônicos de vanguarda e fortes elementos regionais, envolvendo decoração, culinária, mobiliários e jardins, tudo isso numa cidade famosa pelo seu aspecto marcadamente comercial?


Foto: Arquivo - Franklin Maxado
Certificado da FLAT

Como dissemos, nosso objetivo inicial limitava-se a narrar o início e a decadência desse espaço, buscando compreender as suas particularidades simbólicas no contexto local. Mas, a cada passo, a figura de Amélio Amorim tornava-se proeminente, rivalizando com o Complexo empresarial, sua mais polêmica obra. Então, as perguntas iam mudando: quem foi Amélio Amorim e qual o seu projeto cultural? O espaço ganhava iniciativas como a I Feira Livre de Arte Total, realizada por ele em 1977, envolvendo dança, cinema, música, moda, folclore, poesia, cordel, teatro, capoeira e outros eventos que compuseram a programação de uma semana no restaurante Carro de Boi. Este evento dedicado às diversas manifestações artísticas e culturais caracterizava-se como uma espécie de rebeldia ou protesto contra a retirada da feira de comércio popular do centro da cidade, feira que originou a cidade e seu nome, Feira de Santana, e que atraiu visitantes ilustres como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. O entendimento do que foi o Complexo Carro de Boi, acreditávamos, poderia auxiliar na compreensão da própria formação da identidade cultural de Feira de Santana.


Foto: Arquivo - Irma Amorim
Amélio Amorim

Ao final do processo, tínhamos “três” histórias dentro da história. A primeira: a história do Carro de Boi; a segunda: a história de Amélio e, por fim, a história que ressalta a desvalorização da memória cultural de Feira de Santana, pois de tão poucas pessoas saberem quem foi o homem que nomeia um dos maiores centros de cultura da cidade, é uma denúncia de que pouco se preza a própria história; prova disso é deixar cair aquele espaço de memória, como tantos outros na cidade. O nosso documentário teve, então, a pretensão pedagógica e científica de “tornar visível o invisível’, explicitar pelos meios próprios e únicos do cinema a estrutura da sociedade” (Da-Rin, 1995, p. 82).

Queríamos mostrar a estrutura da sociedade, levantar questionamentos, sem, contudo, postular a verdade. Para tanto, escolhemos uma das quatro modalidades de representação que Bill Nichols formulou: o modo reflexivo, pois esse tipo de documentário “mistura passagens observacionais com entrevistas, a voz sobreposta do diretor com intertítulos, deixando patente o que esteve implícito o tempo todo: o documentário sempre foi uma forma de re-presentação, e nunca uma janela aberta para a ‘realidade’” (Nichols, 2005, p. 49). Pois, partindo da abordagem epistemológica pós-moderna, realidade é interpretação.



¹ Resumo do memorial descritivo sobre a produção do referido documentário. E o vídeo pode ser encontrado na sede do NES e na Biblioteca Central Julieta Carteado.


Referências

BARTHES, Roland. Aula. São Paulo. Cultrix, 1978. 
BEAUVOIR, Simone de. A força das coisas; tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. 
BEJAMIN, Valter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. In____ Lima, Luis Costa (org). Teoria da Cultura de Massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
BORDENAVE, Jean. Além dos meios e mensagens. São Paulo: Vozes, 1983.
CASTELLS, Manoel. O poder da identidade. 3ª ed.Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2002. in A era da informação: sociedade e cultura.
DA-RIN, Silvio Pirôpo. Espelho Partido: Tradição e Transformação do Documentário Cinematográfico. Rio de Janeiro: Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1995.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora UNB, 2001
GAMA, Raimundo (org). Memória Fotográfica de Feira de Santana. Feira de Santana: Fundação Cultural de Feira de Santana, 1994.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
LYOTARD, Jean-François. O Pós-Moderno; tradução de Ricardo Correia Barbosa. Rio de Janeiro: 1986. 
MACEDO, Roberto Sidnei. A etnopesquisa crítica e multireferencial nas ciências humanas e na educação. Salvador: EDUFBA, 2004.
MAFFESOLI, Michel. No fundo das aparências. 2ª ed.Petrópolis – RJ. Vozes, 1998.
MEDINA, Cremilda de Araújo. Entrevista: o diálogo possível. São Paulo: Ática, 2002.
MARSHAL, Leandro. O jornalismo na era da publicidade. São Paulo: Summus, 2003.
MORIN, Edgar; LE MOIGNE, Jean-Louis. A inteligência da complexidade. Fundação Peirópoles, 2000.   
NETTO, J. Teixeira Coelho. Arte contemporânea: Condições de Ação Social. São Paulo: Nova Crítica, 1969.
NICHOLS, Bill. A voz do documentário. In____ Ramos, Fernão Pessoa (org). Teoria contemporânea do cinema: Documentário e narratividade ficcional. São Paulo: Senac São Paulo, 2005.
PAREYSON, Luigi. Os problemas da estética. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
VIEIRA, Antônio. Sermão da SexagésimaIn____ Sermões Escolhidos.    
Filmes: 
AMORES Brutos. Direção: Alejandro Gonzáles Iñarritu. Roteiro: Gillermo Arriaga Jordán. Distribuidora: Europa Filmes. 2000.
VIDA é um sopro, A. Direção e Roteiro: Fabiano Maciel. Distribuidora: Gávea Filmes e Pipa Produções. 2005.
BABEL. Direção: Alejandro Gonzáles Iñarritu. Roteiro: Gillermo Arriaga Jordán.. Distribuidora: Paramount. 2006. 
EFEITO Borboleta. Direção e Roteiro: Eric Bress & J. Mackye. Distribuidora: Europa Filmes. 2004. 
VINÍCIUS. Direção: Miguel Faria Jr.. Roteiro: Miguel Faria Jr. e Diana Vasconcelos. Distribuidora: Paramount. 2005.

2 comentários:

José Antônio Batista do Sacramento disse...

Seria interessante disponibilizar o vídeo no YouTube para que possamos compartilhar. Se o vídeo continuar escondido numa biblioteca o público vai continuar desinformado.

Raymundo Luiz Lopes disse...

Onde encontramos o vídeo?
Outra coisa - As imagens do complexo neste blog não estão visíveis.

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