18 de jan de 2011

Secretário Albino Rubim fala sobre Cultura






Foto: Marcelle Cristinne


Antônio Albino Canelas Rubim, ou como é nacionalmente conhecido, Albino Rubim, é diretor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos – IHAC, da Universidade Federal da Bahia, docente do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da mesma universidade, médico, sociólogo, doutor em Políticas Públicas, além de uma extensa lista de outras especialidades. Entre os cargos públicos, Albino Rubim foi Presidente do Conselho Estadual de Cultura da Bahia e da Câmara de Comunicação, Cultura e Turismo da Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia.  
Com conhecimento e experiência profissional vastos, Rubim não tergiversia ao afirmar que a política de cultura municipal de Salvador ainda é insuficiente; ou que “pensar a cultura isoladamente, sem articulá-la a outros segmentos é um ato totalmente delirante”. Em entrevista exclusiva ao Acesso, durante o VI Enecult, ocorrido em maio, em Salvador, ele fala sobre o trabalho desenvolvido pelo Cult – Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura e pela UFBA na área de fomento à cultura, sobre políticas públicas para a área e sobre o desenvolvimento do trabalho do gestor e do produtor cultural contemporâneos.


Acesso – Quando se fala em cursos na área cultural, o que se vê é uma situação de extremos: polos com grande número de cursos e cidades menores com pouquíssimas opções, quando não nulas. Como essa distribuição desigual se reflete no desenvolvimento cultural e na apropriação do espaço urbano?
Albino Rubim – Esses números não devem impressionar ninguém. Primeiramente, eles mostram que há uma demanda; que existem pessoas querendo fazer cursos em grandes cidades. Mas, em questão de qualidade, isso não quer dizer nada. Pelo contrário, porque geralmente são cursos rápidos, em escolas que não têm condições de desenvolver trabalhos desse gênero, que não possuem sequer um gestor cultural.


Acesso – Aqui no Brasil, a gestão cultural e a produção cultural estão acopladas aos cursos de comunicação. Como você enxerga a decisão por esse direcionamento?
A.R. – Acoplar a produção cultural ao curso de comunicação é uma opção completamente aleatória. Por exemplo, nós temos um curso de produção aqui na UFBA, que está dentro da Faculdade de Comunicação. Porém, o curso de produção, que nasceu no mesmo ano, na Universidade Federal Fluminense, apesar de estar vinculado ao Instituto de Artes e Comunicação Social, está diretamente relacionado à área de artes. Além disso, se pegarmos o currículo de um e de outro, percebe-se, no ato, a vinculação com cada área, resultando em cursos bem diferentes. Acredito também que o fato de ambos os cursos estarem em fase embrionária faça com que essa aleatoriedade seja ainda mais perceptível.


Acesso – Se vivemos uma fase embrionária dos cursos de gestão e produção cultural, como são escolhidos hoje os coordenadores de projetos públicos?
A.R. – Esse é um dos maiores dramas dessa área, uma das maiores deficiências na cultura brasileira. Porque, quando se foca em gestão da cultura, existem muitas necessidades específicas na produção e na organização. Porém, o que se vê é um núcleo de pessoas sem base, que não possuem formação, mas estão ali por influência política ou mesmo por serem artistas que acabaram se tornando gestores culturais. Então, é muito amadorística toda a área que faz com que a cultura funcione. Por outro lado, tenho o exemplo concreto do que acontece aqui em Salvador. Após alguns anos de um curso voltado à produção cultural, vemos vários ex-alunos da Faculdade ocupando cargos na Secretaria de Cultura. E o que seria da Secretaria sem essas pessoas? A quantidade de jovens que passaram pela Faculdade e agora estão em cargos políticos é enorme.


Acesso – Por outro lado, vemos cursos de grandes faculdades e universidades do País com um direcionamento muito mercadológico, nos quais há um peso muito grande para as disciplinas de administração e economia, em detrimento de arte e teorias da cultura. Nesse sentido, como orquestrar um currículo coerente para formação de gestores culturais?
A.R. – É importante que esses cursos tenham uma visão legal de políticas culturais, tenham uma visão de instrumentos de gestão. Do contrário, fica-se limitado ao sentido mais superficial da palavra gestor, impossibilitando voos mais altos para a produção de projetos culturais. Mas faltam dados concretos  para identificar os cursos no Brasil.


Acesso – Mas, parece que de um tempo para cá, talvez a partir do governo Lula, passamos a ter pesquisas um pouco mais sistematizadas. Isso é real? Qual o panorama de desenvolvimento desses dados, hoje?
A.R. – Durante o governo do Fernando Henrique Cardoso, mesmo o ministro da Cultura sendo o Francisco Weffort, um sociólogo muito respeitado, o Ministério da Cultura não tinha uma parceria com o IBGE para mapear a cultura. Então, não havia nenhuma informação cultural sendo produzida. Hoje, esse mapeamento começou a ser feito e já sabemos quantos municípios possuem cimenas, livrarias, locadoras de vídeo…


Acesso – E os dados recolhidos com esse mapeamento vem sendo consolidados em forma de políticas públicas eficazes?
A.R. – Acredito que sim, mas ainda é cedo para dizer. Em cultura não existe uma intervenção que tenha uma resposta imediata, porque se trata de uma área que depende de uma maturação indeterminada. Quer dizer, a avaliação dessas pesquisas e, consequentemente, a efetuação de políticas públicas não é algo imediato.


Acesso – No quesito imediato, você acredita que o resultado das eleições possa trazer novos rumos para a política cultural da Bahia e do Brasil?
A.R. – O resultado da eleição é vital para as futuras políticas públicas porque se entrar um governo que não se envolve com cultura e pesquisas para sua comprovação, teremos um conjunto de informações de um período e depois acabou. E se você não tem informação como dará continuidade ao trabalho? Você vai trabalhar o tempo todo com informações de três, cinco anos atrás? Não dá. A informação deve ser regularmente atualizada para um retrato da realidade.


Acesso – Falando um pouco mais sobre políticas públicas. Existem políticos que acreditam que a articulação entre a cultura e outras áreas não seja necessária. Qual a sua visão a esse respeito?
A.R. – Pensar a cultura isoladamente sem articulá-la a outros segmentos, para mim, é um ato totalmente delirante. Não posso pensar a cultura nacional brasileira sem um vínculo com a comunicação, sem um vínculo com a educação, com a segurança. Salvador é uma cidade onde a cultura de rua é importante. Existe um conjunto de atividades culturais focadas na rua. Se as pessoas deixam de frequentar essas atividades por uma questão de segurança, isso não tem parte sobre a cultura? Então, como posso pensar em políticas de cultura sem vinculá-las com outras secretarias? Mas é o profissional de cultura que precisa estar atento a isso. Porque é muito mais difícil um profissional de saúde perceber os elos e se sensibilizar com relação à cultura do que o inverso.


Acesso – Você acredita, então, em um desenvolvimento cultural transversal?
A.R. – É importante perceber que a cultura não pode se perder dentro da visão de transversalidade. É comum ouvirmos que a cultura ajuda a diminuir a violência, ajuda a qualificar a saúde e aí a cultura acaba sendo legitimada porque faz ações fora de seu âmbito. É preciso deixar claro que a cultura é importante por sí só, fundamental para o desenvolvimento humano. E não existe desenvolvimento humano sem cultura. Agora, além de ser importante para isso, ela pode também ajudar em outras questões.


Entrevista realizada em 22/06/10 - Por: Priscila Fernandes / blog Acesso

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